quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Liquidambar styraciflua (Altingiaceae)















Liquidambar styraciflua L. (Altingiaceae) é uma belíssima árvore que se encontra comummente plantada nos passeios das ruas das nossas cidades. Esta foto é muito recente (Dezembro, no final do Outono de 2009) e nela se podem observar as últimas folhas, já avermelhadas, e os curiosos frutos multicapsulares e esféricos desta árvore norte-americana, contra o céu de fim de tarde de um dia de sol.

Abundante informação sobre esta espécie notável pode-se encontrar aqui.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Vacas e pastores III

A Drª Melinda Zeder publicou recentemente uma síntese indispensável sobre a origem da agricultura na Bacia do Mediterrânico (ver aqui). As datas da domesticação da vaca, do porco, da ovelha e da cabra, em anos antes do presente (BP), propostas por esta autora estão resumidas nesta figura:



Os mamíferos herbívoros domésticos das regiões de clima temperado/mediterrânico (exceptuando o coelho, ver aqui) foram originalmente domesticados no SW asiático, assim como a maioria da plantas cultivadas (tema para desenvolver um destes dias). Tudo aconteceu em apenas 1000 anos, pouco depois da invenção da agricultura (ca. 12.500 BP, data impossível de precisar, ver aqui a explicação) e do final da última glaciação (11.500 BP). A vaca evoluiu do auroque (Bos primigenius), extinto no séc. XVII, o porco do javali (Sus scrofa), a ovelha do muflão-asiático (Ovis orientalis) e a cabra da cabra-selvagem (Capra aegagrus). Existem evidências, na Europa, de domesticações politópicas (múltiplas), ou do cruzamento de populações selvagens com domesticados de origem oriental, no porco e na vaca. Nada de surpreendente. Tanto o javali como o auroque eram frequentes em grande parte da Europa. Os criadores de porcos de montanheira sabem, por experiência própria, que os javalis-macho cobrem com frequência e com um assinalável impacte económico, as submissas fêmeas de 'large-white' ou de 'porco-preto'. O mesmo certamente aconteceria entre vacas e auroques-macho.
A domesticação das cabras e ovelhas é mais antiga (ca. de 1000 anos) do que até agora se supunha. Os porcos e o gado bovino foram domesticados pouco depois das ovelhas e cabras. As datações dos macrorrestos de herbívoros domesticados de Chipre são particularmente importantes. Por serem tão próximas das datas da Anatólia e das Montanhas de Zagros indiciam que a pastorícia foi uma invenção de sucesso, e de fácil exportação. Os agricultores migrantes, e o seu kit de animais e plantas domesticadas, atingiram o território continental português três mil anos depois de Chipre, ca. 7500 anos BP.

Rebanho misto de ovelhas bordaleiras (a ovelha mais à direita é do grupo das churras) e cabras serranas [Serra da Estrela: Manteigas, foto CA]

Recordemos os posts anteriores desta série (ver aqui e aqui). ... Assim como as formigas co-evoluíram com os afídeos, o mesmo terá acontecido connosco e com os nossos domesticados animais? Será a nossa relação com os herbívoros domésticos foi suficientemente longa, e suficientemente profunda, para transportamos marcas genéticas recíprocas? Pois, parece que sim. Que as vacas, os porcos, as cabras ou a ovelhas evoluíram nas nossas mãos é algo que ninguém duvida. Todas estas espécies partilham em maior ou menor extensão um conjunto de características morfológicas comuns geneticamente reguladas, o sindrome de domesticação, e.g.: reduzida agressividade, presença residual de defesas físicas (e.g. cornos e presas) ou comportamentais (e.g. comportamento perante a ameaça de predadores), maior produtividade (e.g. de carne ou de leite) e prolificidade (nº filhos/fêmea/ano), e dependência do homem para o cumprimento do ciclo biológico. Beja-Pereira et al. na Nature Genetics (ver aqui) publicaram uma prova definitiva da co-evolução entre humanos e vacas ao demonstrarem que a distribuição dos genes que controlam a tolerância à lactose na Europa, i.e. a capacidade de digerir o açúcar do leite, coincide razoavelmente com a localização de culturas neolíticas fundadas no consumo de leite de vaca.
Portanto, meu caro naturalista que gosta de plantas, quando se ajoelhar para observar formigas e afídeos nos tecidos mais tenros de um cardo recorde-se: a domesticação é um fenómeno universal, não foi "inventado" por nós; os afídeos têm muito em comum com as vacas e com o trigo, e nós com as formigas.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Crataegus monogyna & al. (Rosaceae, Iridaceae)















Uma pessoa amiga enviou-me estas fotos, provenientes de Condeixa, no CW. calc., para identificação...
Penso que Crataegus monogyna Jacq. está inequivocamente presente, assim como uma outra Rosácea, que poderá ser uma espécie de Prunus- algum abrunheiro, Prunus spinosa L., talvez. Parece tratar-se de uma orla espinhosa, muito provavelmente pertencente à classe RHAMNO-PRUNETEA Rivas Goday & Borja ex Tüxen 1962.














A terceira foto deve corresponder provavelmente à bonita Iridácea Gladiolus illyricus L., ou então à sua congénere Gladiolus italicus Mill....

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Linaria alpina (Plantaginaceae)














Em jeito de postal natalício, aqui fica uma imagem da belíssima Linaria alpina (L.) Mill. (Plantaginaceae), uma planta própria de cascalheiras e outros locais rochosos elevados (classe Thlaspietea rotundifolii Br.-Bl. 1948), aqui fotografada a ca. de 2000 m acima do nível do mar, no conhecido monte Schneeberg, próximo de Viena (VII.2005). É também possível reconhecer uma Pedicularis (Orobanchaceae), um Asplenium (Aspleniaceae) e ainda a tão comum Poa bulbosa L. (Poaceae).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Asplenium ruta-muraria (Aspleniaceae)















Asplenium ruta-muraria L. (Aspleniaceae)

Depois das comoventes e edificantes "cenas pastoris", aqui fica algo um pouco mais leve, embora mais rochoso: uma imagem de um dos nossos fetos rupícolas: a "arruda dos montes", Asplenium ruta-muraria L., que se costuma encontrar em ambientes da classe Asplenietea trichomanis (Br.-Bl. in Meier & Br.-Bl. 1934) Oberd. 1977, sobre rochas básicas.
Juntamente com o belo feto, surgem alguns musgos um pouco secos e ainda uns líquenes muito interessantes que não sabemos identificar mas que também fazem parte desta amostra de vegetação rupestre calcícola.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vacas e pastores II

A interacção entre espécies - e.g. relações "predador-presa", "polinizador-planta polinizada" ou "herbívoro-planta" - gera, frequentemente, respostas evolutivas recíprocas. Estas respostas têm uma base genética e uma expressão morfológica, fisiológica e/ou comportamental em todas as espécies envolvidas na interacção (daí a reciprocidade). Designa-se este fenómeno por co-evolução. Muito importante: a co-evolução gera diversidade de formas e funções, enquanto que a adaptação ao ambiente físico faz o contrário. O tema foi já directa ou indirectamente abordado neste blog (ver aqui e aqui).
O termo co-evolução foi cunhado por Paul Erlich, um biólogo que dedicou grande parte da sua vida académica a alertar para as consequências desastrosas do crescimento populacional, e por Peter Raven, um botânico hiperconhecido, há décadas director do Jardim Botânico do Missouri (clicar aqui), possivelmente o mais importante centro de investigação de taxonomia de plantas do mundo.

Se o meu leitor tiver paciência para ler o post anterior (clicar aqui) perceberá que o mutualismo formiga-afídeo retratado na foto foi trabalhado pela co-evolução. Admitindo que os comportamentos envolvidos na relação espécie-espécie têm uma base genética (não são transmitidos culturalmente, por aprendizagem), a foto mostra-nos que as formigas são pastores inatos (nos dois sentidos do termo), e que os afídeos "aprenderam" a gerir em seu proveito a presença das formigas. Vou especular um pouco. Em dado momento da sua história evolutiva, muitas espécies de formigas tiveram como opção evolutiva comer os afídeos; os antepassados dos afídeos, em vez de se especializarem na produção de xaropes adocicados, poderiam ter desenvolvido carapaças, velos de cera ou esguichos de compostos químicos mortais (algumas destas opções foram seguidas, por exemplo, pelas cochonilhas, Homoptera, Coccidae). Por outras palavras, a evolução transformou a interacção formigas-afídeos numa relação de cooperação, em vez de forçar uma "corrida às armas". Calhou assim.

A co-evolução entre formigas e afídeos tem imensas variantes e gradações, legíveis nas características das formigas e afídeos. O Prof. Edward O. Wilson conta-nos alguns casos extremos (ler páginas 356 e 357 deste livro). Por exemplo, algumas espécies de formigas protegem ninfas hibernantes de afídeos no interior dos ninhos durante a estação favorável, e afídeos há que se reduziram a frágeis e complacentes criaturas sem qualquer tipo de protecção física e comportamental frente aos seus potenciais predadores e parasitóides.



Um notável vídeo da BBC. N.b. o ataque das formigas a uma joaninha (Coccinella septempunctata), um voraz predador de afídeos. O Cirsium pratense (Asteraceae) - a planta colonizada por afídeos no vídeo - é muito frequente em Portugal. A meio do filme (15'') aparece de relance o capítulo de um Cirsium vulgare; o realizador não era botânico :)

As formigas são então pastores geneticamente eficientes, e os afídeos dóceis herbívoros, que em vez de leite produzem mel. Onde é que eu, e o naturalista que gosta de plantas que me está a ler, já vimos algo semelhante?
Vou adiar mais uma vez a explicação da etiqueta: História da agricultura. De qualquer modo o vídeo antecipa o último post desta série (ver aqui).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Vacas e pastores I

Num destes dias de Outono fotografei esta terna cena pastoril ...



... formigas de Camponotus cruentatus (Hymenoptera, Formicidae) - uma espécie muito comum na Península Ibérica - a ordenharem cuidadosamente um pequeno rebanho de afídeos (Homoptera, Aphidae), num ramo de dois anos de Cytisus striatus (Fabaceae) «giesta-amarela». Os Camponotus da imagem aproximavam-se, geralmente por detrás, dos seus afídeos, estimulavam-nos com as antenas, estes libertavam uma pequena gota brilhante de um líquido açucarado (a melada), que as formigas sorviam com avidez.
O C. cruentatus alimenta-se de insectos mortos, ou de secreções açucaradas produzidas por plantas ou afídeos. Estudos de ecologia alimentar revelaram que esta espécie tem uma clara preferência pelas meladas de afídeo (Alsina et al., 1988).

As relações mutualistas entre formigas e afídeos são um caso sério de sucesso evolutivo. No Reino Holártico (regiões do hemisfério norte de clima não tropical) os afídeos são muito comuns em folhas e ramos não atempados (ainda verdes), enquanto não chegam os frios invernais. E onde há afídeos ... há formigas.
Os princípios desta relação mutualista são relativamente simples. As formigas oferecem uma protecção agressiva contra predadores e parasitóides (pequenas vespas que depositam ovos no interior do corpo de insectos, como nos filmes da saga "Alien", ver, em sequência, aqui, aqui e aqui). Os afídeos compram um serviço de segurança usando como moeda de troca um alimento energético, extraído directamente do floema das plantas (feixes vaculares que transportam a seiva elaborada nas plantas) com uma armadura bucal picadora-sugadora (constituída por um tubo flexível que penetra os tecidos das plantas).
Protegidos dos seus inimigos, os afídeos podem dedicar-se ao pecado da gula, e reproduzir-se aceleradamente. Durante a maior parte do ano a reprodução faz-se sem sexo (os afídeos que se observam nas árvores de fruto e outras plantas são geralmente fêmeas partenogenéticas, i.e. que se reproduzem assexuadamente). Os machos e as fêmeas sexuadas geralmente só se diferenciam no final da estação favorável (nas nossas latitudes no Outono).
Os afídeos têm, por norma, um efeito muito depressivo no crescimento das plantas. Muitas plantas cultivadas são susceptíveis aos ataques de afídeos (e.g. macieira, pessegueiro e cerejeira) ou aos vírus por eles transmitidos (e.g. batateira e beterraba). Não surpreende, por isso, que a indústria de pesticidas tenha desenvolvidos insecticidas específicos contra afídeos, os aficidas.

Qual a relação entre a cena bucolica representada na fotografia e os sistemas de agricultura, i.e. e o uso agrícola das plantas e animais domesticados (vd. etiqueta)? Será este o tema do próximo post.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Rosmarinus officinalis (Lamiaceae)














Rosmarinus officinalis (Lamiaceae) «alecrim»,
em floração em Dezembro de 2009

Mesmo neste mês tão frio de Dezembro de 2009, as plantas continuam, corajosamente, a florescer!
É o caso deste extraordinário (sub)arbusto chamado Rosmarinus officinalis L. -que possui até uma classe com o seu nome (Ononido-Rosmarinetea Br.-Bl. 1947)- e que, como sabemos bem, em Portugal não é raro, surgindo sobretudo em matos baixos de carácter mediterrânico, frequentemente sobre calcários.
Tournefort é o autor do género Rosmarinus, que Lineu validou (de acordo com o actual Código Internacional de Nomenclatura Botânica).
(A foto é muito recente - foi obtida ontem.)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cynomorium coccineum (Cynomoriaceae)













O Fungo de Malta em Portugal

Pensamos que este parasito é uma das plantas mais raras da flora de Portugal, o Cynomorium coccineum L. (actualmente pertencente à família Cynomoriaceae).
É uma planta de grande beleza, conhecida pelo seu aspecto fungóide (algo semelhante aos cogumelos do género Phallus e afins), por viver ligado às raízes de Chenopodiáceas, Frankeniáceas e outras plantas costeiras, pela sua grande raridade e pela sua distribuição predominantemente mediterrânica (também se encontra na Ilha de Malta, entre diversos outros locais).
De acordo com a informação que consta na Wikipedia, existem provavelmente apenas duas espécies neste género, o único incluído na família Cynomoriaceae (segundo a recente classificação de APG II).
Muita informação acerca desta espécie notável se pode encontrar na Flora iberica (clicar aqui).

Esta foto foi obtida nas arribas da costa algarvia, pr. de Portimão, no início de Maio de 2001. Também se podem observar Pallenis maritima (L.) Greuter [Syn. Asteriscus maritimus (L.) Less] (Asteraceae), Plantago coronopus L. sensu lato (Plantaginaceae) e Dactylis glomerata L. sensu lato (Poaceae), entre outras espécies.

Montia fontana (Portulacaceae)

A minha colega Ana Carvalho, uma ilustre especialista de etnobiologia, cedeu-me duas fotos da Montia fontana «morugem»:




Montia fontana (Portulacaceae) «morugem», uma planta frequente em nascentes, poços, paredes ressumantes e na margem de regatos, com águas frias pouco mineralizadas [autor Beta Martins, projecto POCI/ANT/59395/2004]

As morugens são óptimas para consumir em fresco. Mas eu não lhes pego, tenho-lhes medo, porque convivem, frequentemente, com caracóis pulmonados aquáticos do género Lymnaea (Gastropoda, Lymnaeidae), os vectores da fascíola hepática (ver aqui).

sábado, 12 de dezembro de 2009

Stellaria media (Caryophyllaceae)

Mais uma planta comum de norte a sul de Portugal, que germina, cresce e floresce todo o santo ano:


Stellaria media (Caryophyllaceae) «morugem». Planta particularmente abundante como infestante de Outono-Inverno em hortas frescas, de fundo vale, onde chega a recobrir por completo o solo. N.b. cada flor tem apenas 5 pétalas, no entanto, parecem 10 porque estão fendidas quase até à base [Bragança, II-07; foto CA]

Embora seja comestível e conhecida por «morugem, a S. media não é a «morugem» mais apreciada em saladas, pelo menos aqui em Trás-os-Montes. Confuso? Os nomes vulgares têm, frequentemente, este enorme inconveniente: designam mais de uma espécie, têm, portanto, mais de um significado (polissemia): são confusos por natureza! A melhor das «morugens» para consumir em fresco é uma Portulacaceae, como a «beldroega» (Portulaca oleracea), e chama-se Montia fontana (tema para um post um dia destes).
Num país como o nosso, onde, por tradição, no campo ou na cidade, se conhecem mal as plantas, não é presunção usar nomes científicos: é uma necessidade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Frutos e sementes de Paeonia broteroi (Paeoniaceae)

As peónias (género Paeonia, Paeoniaceae) demonstram uma morfologia exuberante em dois momentos distintos do seu ciclo de fenológico anual: na floração (vd. aqui e aqui), e quando o fruto maduro se rompe e expõe as sementes ao exterior.



Frutos maduros de Paeonia broteroi (Paeoniaceae). As sementes negras são viáveis, as sementes vermelhas são estéreis e resultam de primórdios seminais não fecundados [Bragança, S. Pedro de Sarracenos, Setembro de 2009; fotos CA].

Porque investe a peónia na produção de sementes estéreis grandes e coloridas? Não seria energeticamente mais barato abortar os primórdios não fecundados, como faz a maioria das plantas? Porque é tão vistosa a parede interna do fruto? Tamanha exuberância tem, ou teve, certamente uma função. Uma vez que as sementes férteis são ricas em alcalóides, as cores berrantes do fruto e das sementes estéreis podem ser um aviso do género: "cuidado, não tocar", ou, melhor, "não comer, sementes tóxicas". Ou o inverso, uma forma de atrair eventuais dispersores (actuais, ou já extintos) com a mensagem "aceita-se dispersor de sementes, pagamento garantido". Um sinal enganador, diga-se, porque tanto as sementes estéreis, como as férteis são pobres em nutrientes, i.e. não oferecem recompensas alimentares.
Deixo as duas hipóteses a pairar no ar porque ainda não encontrei na bibliografia uma resposta plausível para a espectacularidade dos frutos maduros de Paeonia. Pode ser que algum dos leitores deste blogue me possa ajudar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Verde e amarelo

A primeiras geadas outonais aceleram e coordenam a senescência e a queda das folhas. O frio queima as folhas, ainda funcionais, das árvores e dos arbustos caducifólios (de folha caduca), que transitam de um verde clorofilino para um castanho escuro em poucos dias, tombando no solo pouco depois. Geadas violentas muito precoces, pelo contrário, podem reter, ainda que secas e pendentes, as folhas nas copas por longo tempo. Frios antes da chuva, cerceiam a retoma da produção de erva nos lameiros (prados perenes seminaturais meso-higrófilos), e atrasam a germinação e a acumulação de biomassa das plantas anuais que colonizam as clareiras dos matos baixos (urzais e estevais) e os restolhos dos cereais. Assim tem acontecido, amiude, na última década, no interior norte e centro de Portugal continental. Em quinze dias as árvores despem-se de folhas, e a paisagem escurece até ao final do Inverno.
Este ano, não! O Outono foi invulgarmente quente, e a chuva suficiente. Por essa razão, dominam a paisagem o verde dos lameiros e dos prados anuais, e os amarelos e os castanhos das árvores caducifólias. As folhas tardam em cair.


Burga (concelho de Macedo de Cavaleiros)


Lamas de Podence (concelho de Macedo de Cavaleiros). N.b. lameiro abandonado.


As cores fortes do nascer do sol (08h00m) na ponte do Remisquedo (linha do Tua), Rebordãos (concelho de Bragança). N.b. em cima, no lado direito, uma talhadia de castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) e, mais abaixo, um bosquete de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral»; lá no alto, no cocuruto do monte, terras de cereal abandonadas colonizadas por um giestal heliófilo (exigente em luz) de Cytisus striatus (Fabaceae) «giesta-amarela» e C. multiflorus (Fabaceae) «giesta-branca», com Quercus dispersos, árvores estas que, mais tarde ou mais cedo, acabarão por expulsar as giestas.

Não me lembro de um Outono assim ...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Hypochaeris radicata e Andryala integrifolia (Asteraceae)

Duas das plantas com flor mais comuns em Portugal Continental, fotografadas na semana passada numa estação de serviço no IP4:


Hypochaeris radicata (Asteraceae). Planta frequente, por exemplo, em muros e margens de caminho com alguma humidade, leitos de cheias, tojais e urzais-tojais temperados, e em lameiros (prados perenes semi-naturais meso-higrófilos)


Andryala integrifolia (Asteraceae). Espécie muito abundante em habitats ruderais (margens de caminhos), como infestante de cereais, em lameiros de secadal e em clareiras de matos baixos (e.g. estevais)

Além de extraordinariamente frequentes, a H. radicata e a A. integrifolia têm em comum uma enorme plasticidade ecológica (ocupam habitats muito diversos) e o facto de florirem todo o ano.
As plantas abundantes, de grande área de distribuição, nem sempre são fáceis de identificar. Por exemplo, para conseguir uma identificação positiva de H. radicata pode ser necessário observar frutos maduros e/ou a raiz, porque esta espécie tem uma morfologia muito plástica (muda radicalmente de forma consoante o habitat).

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Frutos de Euonymus europaeus (Celastraceae)

O Outono é a estação dos frutos e da queda das folhas, assim aprendíamos nos livros de leitura da escola primária, nos tempos da ditadura. O frio é próprio do Inverno e as flores da Primavera. O Verão é a estação do calor e das colheitas. No Portugal urbano do séc. XIX, cada vez mais distante da ruralidade, o discurso terá que ser outro. Não faço ideia qual.
Neste post apresentei aquela que poderá ser a árvore mais rara de Portugal. Recentemente, encontrei os exemplares que se seguem em fruto, no Outono, a condizer com o modelo fenológico do Estado Novo ;-)





Euonymus europaeus (Celastraceae). N.b. folhas opostas e frutos lobulados [Bragança, Serra de Nogueira, foto CA]

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Alpercheiro em amendoeira

As árvores de fruto exigem muita atenção para produzirem fruto com qualidade, e vegetarem com saúde, a nosso gosto. Pedimos muito às árvores domesticadas: que produzam frutos grandes em quantidade, que mantenham uma forma acessível para a colheita e tratamentos fitossanitários; que lutem estoicamente contra doenças e pragas; e que suportem todo o tipo de violências físicas (poda, enxertia e mobilização do solo). A nossa relação com as árvores de fruto fundamenta-se num contrato tacitamente aceite por ambas as partes: nós defendemos e propagamos as árvores, em contrapartida recebemos frutos maravilhosos, impossível de imitar artificialmente.

O conceito de enxertia é simples: sobre um sistema radicular com características vantajosas (e.g. resistência a doenças, à secura ou ao calcário activo), que toma o nome de cavalo ou porta-enxerto, "espeta-se", com uma técnica adequada de enxertia (variável de espécie para espécie), a copa de uma planta com interesse económico, ou que satisfaça os nossos desejos. O cavalo não necessita de pertencer à mesma espécie do enxerto, mas para que as enxertias tenham sucesso o cavalo e o enxerto são, regra geral, filogeneticamente próximos. Cada grupo de plantas tem "regras" próprias no que toca às compatibilidades de enxertia. Por exemplo, enxerta-se pereira (Pyrus communis) em marmeleiro (Cydonia oblonga) ou pilriteiro (Crataegus monogyna), mas não macieira em pereira. As enxertias possíveis nas prunóideas (árvores da família das rosáceas de fruto com caroço, pertencentes ao género Prunus) cultivadas são mais variadas: podemos construir uma árvore onde convivem quatro ou mais espécies, e.g. pessegueiro, ameixeira-europeia, amendoeira e alpercheiro. Um dos cuidados a ter em conta nas árvores enxertadas é a eliminação dos lançamentos provenientes do porta-enxerto. Por essa razão se escava a vinha, e se cortam os rebentos da base (ladrões) no castanheiro.

O alpercheiro (Prunus armeniaca, Rosaceae) enxerta-se facilmente em amendoeira (Prunus dulcis, Rosaceae). Se o clima é seco e escasseia a água para regar, o porta-enxerto de amendoeira é uma boa opção técnica.
O abandono destas árvores muitas vezes tem este efeito:




Torre de Moncorvo, antiga residência do juiz. N.b. os ramos com folhas alongadas (metade esquerda da copa na 1ª foto, em cima na 2ª foto) são de amendoeira; o enxerto de alpercheiro tem folhas triangulares, ou quase [foto CA]


... o cavalo (porta-enxerto) rebela-se contra o cavaleiro (enxerto) :-)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Serra do Reboredo II

O nome Reboredo - do latim robur (nominativo) ou roboris (genitivo) - é uma alusão directa aos carvalhais de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» que revestiam esta serra em tempos de antanho. Ao colonizador romano que habitava as villae da Vilariça (ver aqui), ou ao presor astur-leonês alto-medieval, mais do que uma hipotética dominância do carvalhal, deveria impressionar a natureza insular desta montanha: um pequeno maciço montanhoso, agudo, com abundantes carvalhais, a emergir, imponente, de um mar acinzentado de sobreiros e azinheiras.

No pequeno MPEG que se segue tentei capturar uma interessantíssima peculiaridade do carvalhal do Reboredo:

video

Conseguem ver, logo no início do vídeo, um zimbro (Juniperus oxycedrus, Cupressaceae)? E não é o único! O carvalhal do Reboredo está apinhadinho de zimbros! Se a combinação sobreiro e zimbro é incomum à escala do mediterrânico (vd. aqui), então que dizer deste "carvalhal-zimbral"!

Antes de explorar as causas desta combinação florística tão original convém saber que este bosquete foi, recentemente, sujeito a uma cuidadosa limpeza (eliminação mecânica da vegetação arbustiva), que as suas árvores são todas muito jovens, e que os zimbros, quer adultos quer juvenis, são intolerantes à sombra.
O árvores retratadas no filme certamente, evoluíram a partir de carvalhiças (carvalhos arbustivos, baixos, com grande densidade de caules), secularmente submetidas a pastoreio e corte. Somente após os fluxos migratórios de 60-70 (séc. XX), e a generalização do uso de derivados de petróleo na cozinha e no aquecimento, as carvalhiças tiveram a oportunidade de progredir para alto fuste, i.e. de tomar um porte arbóreo. A paisagem de matriz arbórea visível nas fotos do post anterior (clicar aqui) tem uma génese muito recente (voltarei a este tema para a semana).
O carvalho-negral emite poulas radiculares com grande facilidade (rebentos caulinares com origem em gomos adventícios diferenciados em raízes próximas da superfície do solo). Graças a este mecanismo, sob regimes de perturbação (e.g. corte e fogo) de baixa intensidade, consegue rapidamente recolonizar grandes espaços, por via vegetativa, a partir de um reduzido número de indivíduos iniciais. Por conseguinte, o crescimento vertical das árvores (evolução para alto fuste) foi acompanhado pela expansão horizontal do carvalhal, e pela eliminação das clareiras.

As duas hipóteses aventadas nos parágrafos anteriores - a juvenilidade e a origem do carvalhal do Reboredo a partir de carvalhiças muito abertas e intensamente pastoreadas - sustentam-se nas seguintes observações (os inquéritos estruturados e a fotografia aérea seriam a forma mais apropriada e simples de testar estas hipóteses, mas não tive tempo):
  • árvores pequenas e equiénias (da mesma idade)
  • abundância de troncos de pequeno diâmetro mortos ou dominados (não visíveis no filme)
  • baixa diversidade específica de plantas herbáceas vivazes de orla (plantas características da classe Trifolio-Geranietea)
  • presença abundante de Cytisus striatus, uma giesta pioneira, no sub-bosque (nas orlas dos carvalhais mais maduros esta espécie é substituída pelo C. scoparius subsp. scoparius)
A janela de oportunidade oferecida pela redução da pastorícia e da recolha de lenhas terá sido aproveitada pelo zimbro, uma espécie na época frequente em afloramentos rochosos de difícil acesso no vale do Sabor, e disseminada com grande eficiência a longa distância pelas aves. A canópia (i.e. a copa) do carvalhal, entretanto, fechou, e o zimbro ficou aprisionado no seu interior. Por outro lado, a expansão do carvalhal eliminou as clareiras impedindo a regeneração do zimbro, e de muitas outras espécies heliófilas (e.g. Cytisus striatus).
O estrato arbóreo dos bosques misto de carvalho e zimbro caracteriza-se, então, por uma combinação florística fortuita e transiente, condenada ao insucesso (à escala temporal das árvores, é claro). O filme retrata uma árvore condenada à morte pelos Quercus: um violento e impudente assassinato, com uma lentidão e requinte próprios do mundo vegetal. Não faz sentido, por isso, descrever um novo tipo de carvalhal na Serra do Reboredo. Os bosques mistos de zimbro e carvalho são uma curiosidade tão rara, como temporária.

P.S. dedico este post aos meus alunos do CET (curso de especialização tecnológica) "Defesa da Floresta Contra Incêndios", organizado pelo IPB (Instituto Politécnico de Bragança) em Torre de Moncorvo. Nunca é tarde de mais para voltar a estudar!

sábado, 28 de novembro de 2009

Serra do Reboredo (Moncorvo) I

Nas bibliografias agronómica e geográfica, tradicionalmente, são reconhecidos dois espaços ecologicamente homogéneos no interior norte e centro de Portugal continental: a Terra Quente e a Terra Fria. Os fitossociólogos e os bioclimatologistas confundem o primeiro com o andar bioclimático mesomediterrânico, e o segundo com o andar supramediterrânico.

Dominam as paisagens vegetal e agrária da Terra-Quente os bosques de Querci perenifólios - sobreirais e azinhais, mistos de Juniperus oxycedrus «zimbro», ou não -, os estevais de Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva-comum», os olivais, os amendoais e a vinha. O trigo era o cereal mais cultivado na Terra-Quente. A Terra-Fria situa-se acima dos 650-700 m de altitude. Por essa razão, chove mais, faz mais frio (temperatura média anual inferior a 12º C) e as geadas iniciam-se mais cedo do que na Terra-Quente. Encontram um óptimo ecológico na Terra-Fria os Querci «carvalhos» caducifólios (Quercus robur e Q. pyrenaica), os urzais mesófilos (matos baixos dominados por Erica [Ericaceae] «urzes»), o castanheiro, a batateira e o centeio.

O uso agrícola do território borratou a linha de fronteira entre os andares meso e supramediterrânico, i.e. entre a Terra-Fria e a Terra-Quente. A Serra do Reboredo (concelho de Moncorvo) é um dos locais mais propícios para observar esta transição em Trás-os-Montes, sobretudo no Outono, quando o amarelo e o castanho da folhagem revelam a distribuição, e a ecologia dos Querci caducifólios.


Serra do Reboredo (concelho de Torre de Moncorvo) [foto CA]. Zona indústrial de Moncorvo ao longe; a meio, na margem esquerda da foto, o Carmelo de Moncorvo (vd. foto seguinte). N.b. carvalhal de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» a revestir a encosta norte da Serra do Reboredo; azinhais-zimbrais nos relevos convexos do planalto de Moncorvo; a transição entre os andares de vegetação meso e supramediterrânico situa-se no sopé da Serra do Reboredo; os relevos côncavos estão cultivados, o bosque que no passado os revestia, além do sobreiro, envolvia o Q. faginea subsp. faginea «carvalho-cerquinho» e o Fraxinus angustifolia (Oleaceae) «freixo-de-folhas-estreitas»


Carmelo da Sagrada Família de Torre de Moncorvo (Ordem do Carmo) [foto CA]. N.b. azinhal-zimbral no 1/4 inferior esquerdo da figura; em cima, ao fundo, azinhal-zimbral em regeneração no vale do rio Sabor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae)

Neste post (clicar aqui) mostrei duas liliáceas bulbosas de Outono - Merendera pyrenaica e Colchicum autumnale (= C. multiflorum) - frequentes nas montanhas ácidas do norte e centro do país. Neste aqui apresentei o Crocus carpetanus, outra bulbosa, desta feita uma iridácea de floração primaveril, frequente na mesma região. Como então referiu um comentador, ficou em falta uma alusão ao Crocus serotinus subsp. salzmannii. Aqui está ele:



Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae) «açafrão-bravo», uma bulbosa de floração outonal [Serra de Nogueira, orla de bosque de Quercus pyrenaica; foto C. Aguiar]

domingo, 22 de novembro de 2009

Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae)

A descrição do Vale da Vilariça (vd. aqui) no "Voyage en Portugal ..." (vd. aqui e aqui) é rica em pormenores. Alguns excertos (tradução livre do francês):
"Para lá de Vila For, em direcção a Moncorvo, desce-se por uma pequena pendente suave e através de belas pastagens, até ao rico e fértil vale conhecido por Campo da Vilariça".
"As terras [da Vilariça] não são estrumadas, ao contrário das terras vizinhas".
"Além dos cereais, dos quais se colhem anualmente 30000 alqueires, cultiva-se o cânhamo [para a indústria da cordoaria] nos locais inundados pelo rio Sabor; calculamos que produzam anualmente 220 a 254 milliers [1 millier = ca. 490 kg] de cânhamo".
" A terra própria para o cânhamo em primeiro lugar é arada na Primavera [a charrua não era ainda utilizada na região, estaria em uso um arado com aivecas de madeira ] e depois gradada; quinze dias depois repete-se a operação, semeando-se em seguida. A planta do cânhamo permanece, de ordinário, 100 dias na terra; em seguida é cortada, e amontoada em grandes molhos, durante oito dias, num terreno destinado para o efeito (o tendal); de seguida fazem-se pequenos molhos, as estrigas, que são posteriormente macerados na água".
"... os melões passam por ser os melhores do Reino" ;-)



Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae) « cânhamo» [Le Château de Guédelon, Auxerre, França; foto C. Aguiar].

Na bibliografia taxonómica e nas bases de dados de nomenclatura botânica geralmente admitem-se duas subespécies de C. sativa: sativa e indica. O cânhamo textil, ou cultivado para a produção de sementes destinadas à alimentação animal (fáceis de encontrar nas lojas da especialidade em Portugal, diga-se), pertence à subsp. sativa. Esta subespécie, aparentemente, é nativa da Ásia Central; na Europa Oriental são frequentes populações naturalizadas em ambientes ruderais. As plantas da subsp. sativa têm folhas grandes de segmentos estreitos (vd. foto). Este critério morfológico, no entanto, é insuficiente para destrinçar a subsp. sativa da psicotrópica subsp. indica (vd. aqui). A taxonomia de Cannabis permanece confusa e inconclusiva.

sábado, 21 de novembro de 2009

Vale da Vilariça (Moncorvo)

O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.


Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.

Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.

Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.


Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.






Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]

Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Diplotaxis catholica (Brassicaceae) e Spergula arvensis (Caryophyllaceae)

O Outono adensa-se. Dois dias seguidos de chuva a sério, finalmente! O frio embora (muito) atrasado, não deve tardar. Entretanto, algumas das anuais que germinaram com as primeiras chuvas de Outubro, já produziram flores e frutos, e preparam-se para disseminar as primeiras sementes maduras.
Os dois campeões da precocidade no NE de Trás-os-Montes são ...

Fruto imaturo de Diplotaxis catholica (Brassicaceae). N.b. estilete e estigma na extremidade distal (oposta ao pedicelo) do fruto em formação; ovário a evoluir para fruto com sementes imaturas no seu interior; sementes dispostas em duas fiadas longitudinais, a principal característica do género Diplotaxis [Moncorvo, Vilariça]

Spergula arvensis (Caryophyllaceae) [Moncorvo, Vilariça]

Ao olhar para estas plantas recordei-me de uma das vantagens evolutivas das angiospérmicas geralmente citadas nos livros de evolução de plantas: rápida fecundação e formação de sementes (nas gimnospérmicas [e.g. pinheiros e ciprestes] a fecundação e a disseminação das sementes distam mais de um ano, enquanto uma angiospérmica [plantas com flor] pode florir e produzir sementes em poucos dias).
[fotos C. Aguiar]

domingo, 15 de novembro de 2009

Impatiens balfourii (Balsaminaceae)

Outra planta ruderal (de margens de caminhos e muros) com frutos espermabólicos, i.e. que projectam as sementes à distância (vd. mais um exemplo aqui):

Impatiens balfourii (Balsaminaceae), uma planta anual, de crescimento rápido durante a Primavera e Verão, importada dos Himalaias pelos caçadores de plantas britânicos do séc. XIX, muito frequente - como planta cultivada ou como planta ruderal naturalizada - nas aldeias da Terra-Fria Transmontana [Bragança, Aldeia de Montesinho; Foto C. Aguiar]

As Impatiens produzem um fruto seco tipo cápsula. Ao mais leve toque a cápsula explode, literalmente, projectando as sementes a grande velocidade. Um exercício divertido a experimentar no Parque Natural de Montesinho, nos meses de Agosto e Setembro (até ao início das geadas).

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ecballium elaterium (Cucurbitaceae)

Com o Outono meado, procurando aqui e ali, nos sítios (habitats) certos, lá se vai encontrando uma ou outra flor. Não há defeso para naturalista que gosta de plantas :-)
Por exemplo, nos entulhos de construção, um pouco por todo o país, é fácil observar esta curiosa planta:

Flores e frutos de Ecballium elaterium (Cucurbitaceae) «pepino-de-são-gregório» [foto C. Aguiar, Moncorvo]

Como pertence à família das cucurbitáceas, o E. elaterium produz um pseudofruto (fruto s.l. derivado de um ovário ínfero) baciforme (semelhante a uma baga), que os botânicos, por convenção, apelidam de pepónio. Portanto, são pepónios o melão, a melancia, e os frutos das demais cucurbitáceas cultivadas. O pepónio do pepino-de-são-gregório tem, porém, uma característica muito particular. Na maturação, naturalmente, ou quando perturbado pela passagem de um animal (e.g. homem), destaca-se do pedúnculo e, nesse instante, projecta violentamente as sementes a longa distância. Diz-se que o E. elaterium possui um pepónio espermabólico. Um engenhoso exemplo de dispersão autocórica, i.e. com meios próprios, da planta, é claro.
Aqui vai uma sequência de imagens a retratar o acto de dispersão das sementes nesta espécie (p.f. clicar para ampliar):

[fotos C. Aguiar: Moncorvo]

Experimentem percorrer, em passo acelerado, um "pepinal" de S. Gregório. Parece um dia de carnaval! Esguichos de sementes por todo o lado, em todas as direcções. Cuidado, podem atingir os olhos! Depois cumpram a vossa função de dispersores animais: sacudam a roupa nos entulhos de construção do vizinho ;-)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cornus sanguinea (Cornaceae)

O Outono é uma desconsolada despedida do tempo quente e dos dias longos. As tardes podem ser amenas e soalheiras, mas as manhãs são frescas e orvalhadas. Aproximam-se pelo menos 4 meses de geadas ininterruptas na montanha nordestina, lá para Janeiro ou Fevereiro seguramente polvilhados com pelo menos 3 nevadas. A paisagem entristece-se sob a luz mortiça de um sol a apontar as terras quentes do sul. O ciclo de vida das plantas prossegue o seu ramerrame milenar. As plantas perenes preparam-se para o período frio entrando em dormência. Ainda durante o Verão os meristemas caulinares (tecidos muito frágeis especializados da produção de caule e folhas) foram cuidadosamente revestidos por catáfilos (folhas reduzidas as escamas rígidas com uma função de protecção), e a divisão das suas células interrompida (ou quase) até à próxima Primavera. A queda das folhas das árvores e dos arbustos caducifólios (de folha caduca) entretanto já começou. Primeiro cai a folha dos freixos, depois, a dos castanheiros, dos carvalhos e dos ulmeiros, e por fim a dos salgueiros e dos amieiros, quando as geadas começarem a queimar. Antes da abcisão (queda) das folhas, a clorofila é desmontada e os seus subprodutos - moléculas de grande valor biológico - armazenados nos tecidos do caule da raiz. O verde vibrante da Primavera desaparece então da paisagem. Dominam agora, por estes dias, as cores dos pigmentos foliares sobrantes (carotenos e antocianinas): os amarelos, o laranja e o vermelho.

Nas sebes espinhosas, as cores quentes do Outono surgem pontuadas pelos frutos coloridos dos arbustos característicos de uma classe de vegetação que os fitossociólogos designam sob o pomposo nome de Rhamno-Prunetea spinosae. Esta é uma boa altura para distinguir nas sebes da Terra-Fria nordestina 3 espécies, muito mais frequentes do julgávamos há uns anos atrás, e que o menos avisado facilmente confundirá: Cornus sanguinea (Cornaceae), Rhamnus cathartica (Rhamnaceae) e Prunus insititia (Rosaceae).

Três fotos primaveris de C. sanguinea:

[Bragança, Veiga de Gostei; fotos C. Aguiar]

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a introdução da cultura do castanheiro para fruto em Portugal


Fim de semana outonal na Aldeia de Maçãs (Bragança). Os soutos estão cheios de gente a apanhar a castanha do chão. O produto de um longo dia de trabalho, acondicionado em sacas de adubo ou de batata-semente acumula-se junto à estrada, sob a protecção de um frondoso castanheiro. A tardinha aproxima-se. Mais uma hora e a carrinha de caixa aberta estará atestada de sacos de castanha, pronta para partir para a cidade.

Uma recente revisão das fontes históricas e paleoecológicas disponíveis sobre a história antiga do castanheiro como planta cultivada na Europa, oferece-nos quatro importantes conclusões (Conedera et al., Veget Hist Archaeobot, 13, 2004):
  • A primeira evidência do alargamento da distribuição do castanheiro liderado pelo Homem provém da Anatólia (Turquia) e data de 2100-2050 a.C.;
  • O cultivo do castanheiro terá sido levado para a Península Itálica pelos Gregos;
  • Não existem provas da plantação e cultivo sistemático do castanheiro fora da Península Itálica durante o período romano;
  • O castanheiro só ganha importância como planta frumentária no NW europeu na Alta Idade Média, consolidando-se nos sistemas tradicionais de agricultura a partir do séc. XI.
Esta última conclusão é particularmente importante. A cultura do castanheiro para fruto é, então, uma das inovações tecnológicas agrícolas da "revolução agrícola medieval"!