segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Serra do Reboredo II

O nome Reboredo - do latim robur (nominativo) ou roboris (genitivo) - é uma alusão directa aos carvalhais de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» que revestiam esta serra em tempos de antanho. Ao colonizador romano que habitava as villae da Vilariça (ver aqui), ou ao presor astur-leonês alto-medieval, mais do que uma hipotética dominância do carvalhal, deveria impressionar a natureza insular desta montanha: um pequeno maciço montanhoso, agudo, com abundantes carvalhais, a emergir, imponente, de um mar acinzentado de sobreiros e azinheiras.

No pequeno MPEG que se segue tentei capturar uma interessantíssima peculiaridade do carvalhal do Reboredo:

video

Conseguem ver, logo no início do vídeo, um zimbro (Juniperus oxycedrus, Cupressaceae)? E não é o único! O carvalhal do Reboredo está apinhadinho de zimbros! Se a combinação sobreiro e zimbro é incomum à escala do mediterrânico (vd. aqui), então que dizer deste "carvalhal-zimbral"!

Antes de explorar as causas desta combinação florística tão original convém saber que este bosquete foi, recentemente, sujeito a uma cuidadosa limpeza (eliminação mecânica da vegetação arbustiva), que as suas árvores são todas muito jovens, e que os zimbros, quer adultos quer juvenis, são intolerantes à sombra.
O árvores retratadas no filme certamente, evoluíram a partir de carvalhiças (carvalhos arbustivos, baixos, com grande densidade de caules), secularmente submetidas a pastoreio e corte. Somente após os fluxos migratórios de 60-70 (séc. XX), e a generalização do uso de derivados de petróleo na cozinha e no aquecimento, as carvalhiças tiveram a oportunidade de progredir para alto fuste, i.e. de tomar um porte arbóreo. A paisagem de matriz arbórea visível nas fotos do post anterior (clicar aqui) tem uma génese muito recente (voltarei a este tema para a semana).
O carvalho-negral emite poulas radiculares com grande facilidade (rebentos caulinares com origem em gomos adventícios diferenciados em raízes próximas da superfície do solo). Graças a este mecanismo, sob regimes de perturbação (e.g. corte e fogo) de baixa intensidade, consegue rapidamente recolonizar grandes espaços, por via vegetativa, a partir de um reduzido número de indivíduos iniciais. Por conseguinte, o crescimento vertical das árvores (evolução para alto fuste) foi acompanhado pela expansão horizontal do carvalhal, e pela eliminação das clareiras.

As duas hipóteses aventadas nos parágrafos anteriores - a juvenilidade e a origem do carvalhal do Reboredo a partir de carvalhiças muito abertas e intensamente pastoreadas - sustentam-se nas seguintes observações (os inquéritos estruturados e a fotografia aérea seriam a forma mais apropriada e simples de testar estas hipóteses, mas não tive tempo):
  • árvores pequenas e equiénias (da mesma idade)
  • abundância de troncos de pequeno diâmetro mortos ou dominados (não visíveis no filme)
  • baixa diversidade específica de plantas herbáceas vivazes de orla (plantas características da classe Trifolio-Geranietea)
  • presença abundante de Cytisus striatus, uma giesta pioneira, no sub-bosque (nas orlas dos carvalhais mais maduros esta espécie é substituída pelo C. scoparius subsp. scoparius)
A janela de oportunidade oferecida pela redução da pastorícia e da recolha de lenhas terá sido aproveitada pelo zimbro, uma espécie na época frequente em afloramentos rochosos de difícil acesso no vale do Sabor, e disseminada com grande eficiência a longa distância pelas aves. A canópia (i.e. a copa) do carvalhal, entretanto, fechou, e o zimbro ficou aprisionado no seu interior. Por outro lado, a expansão do carvalhal eliminou as clareiras impedindo a regeneração do zimbro, e de muitas outras espécies heliófilas (e.g. Cytisus striatus).
O estrato arbóreo dos bosques misto de carvalho e zimbro caracteriza-se, então, por uma combinação florística fortuita e transiente, condenada ao insucesso (à escala temporal das árvores, é claro). O filme retrata uma árvore condenada à morte pelos Quercus: um violento e impudente assassinato, com uma lentidão e requinte próprios do mundo vegetal. Não faz sentido, por isso, descrever um novo tipo de carvalhal na Serra do Reboredo. Os bosques mistos de zimbro e carvalho são uma curiosidade tão rara, como temporária.

P.S. dedico este post aos meus alunos do CET (curso de especialização tecnológica) "Defesa da Floresta Contra Incêndios", organizado pelo IPB (Instituto Politécnico de Bragança) em Torre de Moncorvo. Nunca é tarde de mais para voltar a estudar!

sábado, 28 de novembro de 2009

Serra do Reboredo (Moncorvo) I

Nas bibliografias agronómica e geográfica, tradicionalmente, são reconhecidos dois espaços ecologicamente homogéneos no interior norte e centro de Portugal continental: a Terra Quente e a Terra Fria. Os fitossociólogos e os bioclimatologistas confundem o primeiro com o andar bioclimático mesomediterrânico, e o segundo com o andar supramediterrânico.

Dominam as paisagens vegetal e agrária da Terra-Quente os bosques de Querci perenifólios - sobreirais e azinhais, mistos de Juniperus oxycedrus «zimbro», ou não -, os estevais de Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva-comum», os olivais, os amendoais e a vinha. O trigo era o cereal mais cultivado na Terra-Quente. A Terra-Fria situa-se acima dos 650-700 m de altitude. Por essa razão, chove mais, faz mais frio (temperatura média anual inferior a 12º C) e as geadas iniciam-se mais cedo do que na Terra-Quente. Encontram um óptimo ecológico na Terra-Fria os Querci «carvalhos» caducifólios (Quercus robur e Q. pyrenaica), os urzais mesófilos (matos baixos dominados por Erica [Ericaceae] «urzes»), o castanheiro, a batateira e o centeio.

O uso agrícola do território borratou a linha de fronteira entre os andares meso e supramediterrânico, i.e. entre a Terra-Fria e a Terra-Quente. A Serra do Reboredo (concelho de Moncorvo) é um dos locais mais propícios para observar esta transição em Trás-os-Montes, sobretudo no Outono, quando o amarelo e o castanho da folhagem revelam a distribuição, e a ecologia dos Querci caducifólios.


Serra do Reboredo (concelho de Torre de Moncorvo) [foto CA]. Zona indústrial de Moncorvo ao longe; a meio, na margem esquerda da foto, o Carmelo de Moncorvo (vd. foto seguinte). N.b. carvalhal de Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» a revestir a encosta norte da Serra do Reboredo; azinhais-zimbrais nos relevos convexos do planalto de Moncorvo; a transição entre os andares de vegetação meso e supramediterrânico situa-se no sopé da Serra do Reboredo; os relevos côncavos estão cultivados, o bosque que no passado os revestia, além do sobreiro, envolvia o Q. faginea subsp. faginea «carvalho-cerquinho» e o Fraxinus angustifolia (Oleaceae) «freixo-de-folhas-estreitas»


Carmelo da Sagrada Família de Torre de Moncorvo (Ordem do Carmo) [foto CA]. N.b. azinhal-zimbral no 1/4 inferior esquerdo da figura; em cima, ao fundo, azinhal-zimbral em regeneração no vale do rio Sabor.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae)

Neste post (clicar aqui) mostrei duas liliáceas bulbosas de Outono - Merendera pyrenaica e Colchicum autumnale (= C. multiflorum) - frequentes nas montanhas ácidas do norte e centro do país. Neste aqui apresentei o Crocus carpetanus, outra bulbosa, desta feita uma iridácea de floração primaveril, frequente na mesma região. Como então referiu um comentador, ficou em falta uma alusão ao Crocus serotinus subsp. salzmannii. Aqui está ele:



Crocus serotinus subsp. salzmannii (Iridaceae) «açafrão-bravo», uma bulbosa de floração outonal [Serra de Nogueira, orla de bosque de Quercus pyrenaica; foto C. Aguiar]

domingo, 22 de novembro de 2009

Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae)

A descrição do Vale da Vilariça (vd. aqui) no "Voyage en Portugal ..." (vd. aqui e aqui) é rica em pormenores. Alguns excertos (tradução livre do francês):
"Para lá de Vila For, em direcção a Moncorvo, desce-se por uma pequena pendente suave e através de belas pastagens, até ao rico e fértil vale conhecido por Campo da Vilariça".
"As terras [da Vilariça] não são estrumadas, ao contrário das terras vizinhas".
"Além dos cereais, dos quais se colhem anualmente 30000 alqueires, cultiva-se o cânhamo [para a indústria da cordoaria] nos locais inundados pelo rio Sabor; calculamos que produzam anualmente 220 a 254 milliers [1 millier = ca. 490 kg] de cânhamo".
" A terra própria para o cânhamo em primeiro lugar é arada na Primavera [a charrua não era ainda utilizada na região, estaria em uso um arado com aivecas de madeira ] e depois gradada; quinze dias depois repete-se a operação, semeando-se em seguida. A planta do cânhamo permanece, de ordinário, 100 dias na terra; em seguida é cortada, e amontoada em grandes molhos, durante oito dias, num terreno destinado para o efeito (o tendal); de seguida fazem-se pequenos molhos, as estrigas, que são posteriormente macerados na água".
"... os melões passam por ser os melhores do Reino" ;-)



Cannabis sativa subsp. sativa (Cannabaceae) « cânhamo» [Le Château de Guédelon, Auxerre, França; foto C. Aguiar].

Na bibliografia taxonómica e nas bases de dados de nomenclatura botânica geralmente admitem-se duas subespécies de C. sativa: sativa e indica. O cânhamo textil, ou cultivado para a produção de sementes destinadas à alimentação animal (fáceis de encontrar nas lojas da especialidade em Portugal, diga-se), pertence à subsp. sativa. Esta subespécie, aparentemente, é nativa da Ásia Central; na Europa Oriental são frequentes populações naturalizadas em ambientes ruderais. As plantas da subsp. sativa têm folhas grandes de segmentos estreitos (vd. foto). Este critério morfológico, no entanto, é insuficiente para destrinçar a subsp. sativa da psicotrópica subsp. indica (vd. aqui). A taxonomia de Cannabis permanece confusa e inconclusiva.

sábado, 21 de novembro de 2009

Vale da Vilariça (Moncorvo)

O chão transmontano é pouco propício a uma agricultura capitalista intensiva. Os solos são ácidos e pobres em nutrientes. A boa terra agrícola reduz-se a pequenas nesgas alongadas de coluvião de fundo de encosta comprimido entre a linha de água e a aldeia, ou a algum depósito de cobertura neogénico (com uma idade inferior a 23 milhões de anos). Quando faz calor escasseia a água, como é próprio do clima mediterrânico. No Inverno a chuva por vezes é tanta que os cereais não enraízam em profundidade o suficiente para adequadamente suportarem as primaveras mais secas. A natureza do solo e o relevo movimentado obviam o desenvolvimento do regadio, e explicam a dominância das culturas de sequeiro de baixa produtividade nos sistemas regionais de agricultura.


Vale da Vilariça (Moncorvo). No centro da imagem, pelo monte acima, o fantástico azinhal-zimbral da Quinta da Terrincha.

Os planaltos ácidos e oligotróficos e os exíguos coluviões que caracterizam a paisagem agrária transmontana são interrompidos por dois vales neotectónicos profundos (de formação recente, à escala de tempo geológica, claro) - o Vale da Vilariça e a Veiga de Chaves - preenchidos com solos de grande aptidão agrícola. Estes vales simbolizam, de algum modo, aquilo que Trás-os-Montes nunca foi: uma terra úbere, benevolente para com os seus povoadores.

Na Vilariça além do mosaico policultural, só de si digno da atenção do naturalista que gosta de plantas, sobressaem os fabulosos bosques mistos de azinheira e zimbro da Quinta da Terrincha.


Bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», um importante habitat prioritário Rede Natura 2000 ("9560 Florestas endémicas de Juniperus sp.", vd. aqui). Uma parte significativa do bosque da Terrincha ocupa mortórios, i.e. solos cultivados com vinha até à crise da filoxera, na segunda metade do séc. XIX (vd.este post). N.b. a copa avermelhada (efeito das folhas senescentes) de Pistacia terebinthus (Anacardiaceae) «cornalheira», uma das raras espécies caducifófias do nosso bosque perenifólio, passe a aparente contradição; as árvores despidas de folhas são choupos híbridos (Populus x canadensis, Salicaceae) de plantação recente.






Churra-badana (em cima) [foto Amândio Esteves] e Churra-da-terra-quente (em baixo) [foto C. Aguiar]

Conta-me o meu bom amigo Manuel Cardoso, ilustríssimo médico veterinário e escritor de Macedo de Cavaleiros, que a raça ovina Churra-da-terra-quente, também conhecida por ovelha Terrincha, "nasceu" de um cruzamento experimental entre a rústica Churra-badana, uma raça trasmontana seriamente ameaçada de extinção (o efectivo não ultrapassa os 3000 animais), e a produtiva Mondegueira, realizado na Quinta da Terrincha, no séc. XIX.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Diplotaxis catholica (Brassicaceae) e Spergula arvensis (Caryophyllaceae)

O Outono adensa-se. Dois dias seguidos de chuva a sério, finalmente! O frio embora (muito) atrasado, não deve tardar. Entretanto, algumas das anuais que germinaram com as primeiras chuvas de Outubro, já produziram flores e frutos, e preparam-se para disseminar as primeiras sementes maduras.
Os dois campeões da precocidade no NE de Trás-os-Montes são ...

Fruto imaturo de Diplotaxis catholica (Brassicaceae). N.b. estilete e estigma na extremidade distal (oposta ao pedicelo) do fruto em formação; ovário a evoluir para fruto com sementes imaturas no seu interior; sementes dispostas em duas fiadas longitudinais, a principal característica do género Diplotaxis [Moncorvo, Vilariça]

Spergula arvensis (Caryophyllaceae) [Moncorvo, Vilariça]

Ao olhar para estas plantas recordei-me de uma das vantagens evolutivas das angiospérmicas geralmente citadas nos livros de evolução de plantas: rápida fecundação e formação de sementes (nas gimnospérmicas [e.g. pinheiros e ciprestes] a fecundação e a disseminação das sementes distam mais de um ano, enquanto uma angiospérmica [plantas com flor] pode florir e produzir sementes em poucos dias).
[fotos C. Aguiar]

domingo, 15 de novembro de 2009

Impatiens balfourii (Balsaminaceae)

Outra planta ruderal (de margens de caminhos e muros) com frutos espermabólicos, i.e. que projectam as sementes à distância (vd. mais um exemplo aqui):

Impatiens balfourii (Balsaminaceae), uma planta anual, de crescimento rápido durante a Primavera e Verão, importada dos Himalaias pelos caçadores de plantas britânicos do séc. XIX, muito frequente - como planta cultivada ou como planta ruderal naturalizada - nas aldeias da Terra-Fria Transmontana [Bragança, Aldeia de Montesinho; Foto C. Aguiar]

As Impatiens produzem um fruto seco tipo cápsula. Ao mais leve toque a cápsula explode, literalmente, projectando as sementes a grande velocidade. Um exercício divertido a experimentar no Parque Natural de Montesinho, nos meses de Agosto e Setembro (até ao início das geadas).

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ecballium elaterium (Cucurbitaceae)

Com o Outono meado, procurando aqui e ali, nos sítios (habitats) certos, lá se vai encontrando uma ou outra flor. Não há defeso para naturalista que gosta de plantas :-)
Por exemplo, nos entulhos de construção, um pouco por todo o país, é fácil observar esta curiosa planta:

Flores e frutos de Ecballium elaterium (Cucurbitaceae) «pepino-de-são-gregório» [foto C. Aguiar, Moncorvo]

Como pertence à família das cucurbitáceas, o E. elaterium produz um pseudofruto (fruto s.l. derivado de um ovário ínfero) baciforme (semelhante a uma baga), que os botânicos, por convenção, apelidam de pepónio. Portanto, são pepónios o melão, a melancia, e os frutos das demais cucurbitáceas cultivadas. O pepónio do pepino-de-são-gregório tem, porém, uma característica muito particular. Na maturação, naturalmente, ou quando perturbado pela passagem de um animal (e.g. homem), destaca-se do pedúnculo e, nesse instante, projecta violentamente as sementes a longa distância. Diz-se que o E. elaterium possui um pepónio espermabólico. Um engenhoso exemplo de dispersão autocórica, i.e. com meios próprios, da planta, é claro.
Aqui vai uma sequência de imagens a retratar o acto de dispersão das sementes nesta espécie (p.f. clicar para ampliar):

[fotos C. Aguiar: Moncorvo]

Experimentem percorrer, em passo acelerado, um "pepinal" de S. Gregório. Parece um dia de carnaval! Esguichos de sementes por todo o lado, em todas as direcções. Cuidado, podem atingir os olhos! Depois cumpram a vossa função de dispersores animais: sacudam a roupa nos entulhos de construção do vizinho ;-)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cornus sanguinea (Cornaceae)

O Outono é uma desconsolada despedida do tempo quente e dos dias longos. As tardes podem ser amenas e soalheiras, mas as manhãs são frescas e orvalhadas. Aproximam-se pelo menos 4 meses de geadas ininterruptas na montanha nordestina, lá para Janeiro ou Fevereiro seguramente polvilhados com pelo menos 3 nevadas. A paisagem entristece-se sob a luz mortiça de um sol a apontar as terras quentes do sul. O ciclo de vida das plantas prossegue o seu ramerrame milenar. As plantas perenes preparam-se para o período frio entrando em dormência. Ainda durante o Verão os meristemas caulinares (tecidos muito frágeis especializados da produção de caule e folhas) foram cuidadosamente revestidos por catáfilos (folhas reduzidas as escamas rígidas com uma função de protecção), e a divisão das suas células interrompida (ou quase) até à próxima Primavera. A queda das folhas das árvores e dos arbustos caducifólios (de folha caduca) entretanto já começou. Primeiro cai a folha dos freixos, depois, a dos castanheiros, dos carvalhos e dos ulmeiros, e por fim a dos salgueiros e dos amieiros, quando as geadas começarem a queimar. Antes da abcisão (queda) das folhas, a clorofila é desmontada e os seus subprodutos - moléculas de grande valor biológico - armazenados nos tecidos do caule da raiz. O verde vibrante da Primavera desaparece então da paisagem. Dominam agora, por estes dias, as cores dos pigmentos foliares sobrantes (carotenos e antocianinas): os amarelos, o laranja e o vermelho.

Nas sebes espinhosas, as cores quentes do Outono surgem pontuadas pelos frutos coloridos dos arbustos característicos de uma classe de vegetação que os fitossociólogos designam sob o pomposo nome de Rhamno-Prunetea spinosae. Esta é uma boa altura para distinguir nas sebes da Terra-Fria nordestina 3 espécies, muito mais frequentes do julgávamos há uns anos atrás, e que o menos avisado facilmente confundirá: Cornus sanguinea (Cornaceae), Rhamnus cathartica (Rhamnaceae) e Prunus insititia (Rosaceae).

Três fotos primaveris de C. sanguinea:

[Bragança, Veiga de Gostei; fotos C. Aguiar]

domingo, 8 de novembro de 2009

Sobre a introdução da cultura do castanheiro para fruto em Portugal


Fim de semana outonal na Aldeia de Maçãs (Bragança). Os soutos estão cheios de gente a apanhar a castanha do chão. O produto de um longo dia de trabalho, acondicionado em sacas de adubo ou de batata-semente acumula-se junto à estrada, sob a protecção de um frondoso castanheiro. A tardinha aproxima-se. Mais uma hora e a carrinha de caixa aberta estará atestada de sacos de castanha, pronta para partir para a cidade.

Uma recente revisão das fontes históricas e paleoecológicas disponíveis sobre a história antiga do castanheiro como planta cultivada na Europa, oferece-nos quatro importantes conclusões (Conedera et al., Veget Hist Archaeobot, 13, 2004):
  • A primeira evidência do alargamento da distribuição do castanheiro liderado pelo Homem provém da Anatólia (Turquia) e data de 2100-2050 a.C.;
  • O cultivo do castanheiro terá sido levado para a Península Itálica pelos Gregos;
  • Não existem provas da plantação e cultivo sistemático do castanheiro fora da Península Itálica durante o período romano;
  • O castanheiro só ganha importância como planta frumentária no NW europeu na Alta Idade Média, consolidando-se nos sistemas tradicionais de agricultura a partir do séc. XI.
Esta última conclusão é particularmente importante. A cultura do castanheiro para fruto é, então, uma das inovações tecnológicas agrícolas da "revolução agrícola medieval"!

sábado, 7 de novembro de 2009

Três notas sobre o castanheiro (Castanea sativa, Fagaceae) III

O Engº Malato Beliz questionava, em 1987, a carácter indígena do castanheiro em Portugal, com base em dois argumentos: 1) o castanheiro está sempre associado à presença do homem; 2) e ausente dos bosques caducifólios mais bem conservados. Os surtos de tinta do castanheiro iniciados no século XIX não explicam esta ausência porque os solos de bosque são supressivos (impedem a acção) para o agente desta doença.
O castanheiro é, ou não, uma planta indígena de Portugal continental? Um pergunta importante, para uma importante planta cultivada.
Comecemos pelo princípio.
Os grãos de pólen depositados em turfeiras são a principal fonte de informação para reconstruir a história do castanheiro, e de muitas outras plantas, em Portugal, mas não a única (os autores clássicos, e.g. Plínio o Velho e Columella, a genética [estudos filogeográficos] e os macrorrestos vegetais [e.g. pedaços carbonizados de madeira], são também importantes).
As turfeiras são depressões permanente encharcadas que acumulam sedimentos orgânicos, ácidos e de lenta decomposição. Os grãos pólen que acidentalmente tombem numa turfeira degradam-se muito lentamente. Algumas trufeiras acumularam sedimentos e, por conseguinte, grãos de pólen, durante milhares de anos. Quanto maior profundidade, maior a antiguidade dos grãos de pólen e dos sedimentos que os contêm. Com técnicas apropriadas estes grãos de pólen podem ser identificados (geralmente ao nível da espécie ou do género), contados e, com maior ou menor precisão, indirectamente datados. O coberto vegetal variou ao longo do tempo, e, por esse motivo, a concentração e os tipos de pólen que se acumularam nas turfeiras. As sondagens paleopalinológicas são, por isso, uma fonte essencial de informação na reconstrução da paisagem vegetal, e dos climas passados, sobretudo nos últimos 11.500-14.000 anos antes do presente (BP).

Lama Grande (Montesinho, Bragança). Uma antiga turfeira drenada para o cultivo da batata semente nos meados do séc. XX.

É consensual que o castanheiro se refugiou na Península Ibérica durante a última glaciação (concluída cerca de 11.500 anos BP). Nas sondagens paleopalinológicas obtidas no norte e centro do território continental Português, ou em regiões espanholas vizinhas, os grãos de pólen de castanheiro são mais ou menos constantes num pequeno período quente chamado Interestadial Tardiglaciar (ca. 14.000-12.700 BP). O castanheiro acompanha a regressão da vegetação arbórea associada ao Dryas recente, um curta pulsação fria com cerca de mil anos de duração (ca. 12.700-11.500 anos BP, datas calibradas), e não recupera com a chegada do Holocénico (de 11.500 anos BP até hoje), ou as suas concentrações polínicas nas sondagens paleopalinológicas são tão baixas que existe o risco do seu pólen ser confundido com outros pólenes análogos (e.g. Sedum e Hypericum).
Alguns autores defendem que a C. sativa seria uma espécie pioneira de solos florestais intactos, o que justificaria a sua raridade durante o período de máxima expansão dos bosques holocénicos (grosso modo entre 1/4 e 1/2 do Holocénico) e a sua (modesta e pontual) recuperação, antes da romanização, em consequência de um incremento das actividades humanas durante as idades do bronze e ferro. Outros autores, com base em macrorrestos recolhidos em Portugal, propõem que o castanheiro teria persistido até muito tarde no NW de Portugal, em bosques de biótopos (sítios) húmidos e quentes, possivelmente próximos do litoral.
O mais provável - os dados paleopalinológicos e a ecologia actual da espécie assim o indicam - é que o castanheiro se tenha extinguido no território continental Português, num momento impossível de precisar, algures durante o último quarto do Holocénico. Se o castanheiro teve como habitat preferencial solos florestais húmidos (não encharcados), ricos em nutrientes, das terras baixas do NW de Portugal, é admissível que estes tenham sido, na sua totalidade, reclamados pela agricultura. Os castanheiros que hoje se cultivam no país são domesticados de origem, por enquanto, muito discutida. O castanheiro não é, portanto, indígena de Portugal!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aster aragonensis (Asteraceae)

Nos meados de Setembro, depois de três meses, ou mais, sem chuva, a terra ressequida que intervala as estevas do vale profundo da Terra Quente, ou os arbustos da montanha nordestina, brilha sob o sol ainda vibrante do final do Verão. As plantas perenes cerram os estomas até ao ponto em que a temperatura das folhas periga todo o sistema fotossintético. As plantas anuais há muito concluíram o seu ciclo biológico, e permanecem escondidas no solo, expectantes, reduzidas a semente. Os regatos secaram, e com eles as Mentha, os Epilobium, Scrophularia, e demais plantas higrófilas. Aqui e ali desponta uma folha de gramínea perene beneficiada por um veio capilar de água subterrânea. Os animais domésticos comem, ou comiam, quando os havia, melhor dizendo, a folha ripada do Fraxinus angustifolia «freixo-de-folhas-estreitas» e do Ulmus minor «ulmeiro», um raminho novo de Ulex «tojo» ou Pterospartum «carqueja», uma ponta de restolho calcinado pelo sol, o caule agostado de um Agrostis ou de um Arrhenatherum, ou, ainda, uma rara ervita fresca de sítio sombrio e húmido. Complementavam a alimentação do animal, alguma Cucurbita maxima «abóbora-porqueira» ou erva da cortinha, segada com foice ou gadanha, palha e pouco feno (há que guardá-lo para o Inverno), o mesocarpo (polpa) da drupa da Prunus dulcis «amendoeira» (a amêndoa fica para trás, protegida pelo caroço, i.e. pelo endocarpo) ou, mesmo, a folha libertada pela Olea europaea «oliveira», também ela sedenta, e precisada de reduzir a copa transpirante. Os rebanhos mais afortunados de gado miúdo (ovelhas e cabras) desciam ao vale do grande rio permanente, ao Sabor ou ao Côa, por exemplo, e pastavam a estreita margem verde de Festuca ampla, Agrostis e Paspalum, que serpenteia na imediata vizinhança dos poços lênticos ou de um teimoso fiozinho de água.

Terra-Quente transmontana (NE de Portugal). Em primeiro plano oliveiras, em segundo amendoeiras, e lá de trás bosque misto de Quercus rotundifolia (Fagaceae) «azinheira» e Juniperus oxycedrus (Cupressaceae) «zimbro», com algum Quercus suber (Fagaceae) «sobreiro» emergente. N.b. o J. oxycedrus distingue-se pelas copas semelhantes à chama de uma vela [Concelho de Alfândega da Fé]]

Sente-se um compasso espera. A vida está em suspenso até à chegada das primeiras chuvas outonais. Até o agricultor, se não tiver uvas para vindimar, goza dias de calmaria, enquanto aguarda pela época das sementeiras.
Acabaram as flores. O botânico pode regressar ao herbário, ou partir de férias, até Outubro, altura ideal para colher as bulbosas de Outono.
Será?

Aqui, no Nordeste, numa unidade geológica a que os geólogos chamam, se não estou enganado, "Unidade Autóctone Superior", temos uns xistos ditos verdes, duros e de lenta meteorização ("formam" solo muito lentamente), ricos em bases (e.g. cálcio e magnésio), que albergam uma flora bem curiosa. Uma das plantas que aqui se encontram é esta:


Aster aragonensis (Asteraceae), um endemismo ibérico, pontual no NE de Portugal. N.b. na 2ª foto as folhas glaucas (=azuladas) de outro endemismo ibérico, a Festuca summilusitana (Poaceae), descrita por J. do Amaral Franco e Mª da Luz Rocha Afonso em 1980. A esta gramínea nem as cabras lhe pegam! [Bragança, Serra de Nogueira]

Pois bem. Tudo seco? Dizia eu? Nem tudo, acreditem. Não sei como é, mas este Aster transpira, literalmente, vida, quando tudo o mais morre pela chegada da água e das noites frescas de Outono.
[fotos C. Aguiar]

domingo, 1 de novembro de 2009

Quercus x neomarei (Fagaceae) e Cistus x cyprius (Cistaceae)

Pouco antes das férias grandes o meu amigo Rubim Silva (F.Ciências-U.Porto) enviou-me um artigo da Nature - Rieseberg et al., The Nature of Plant Species, Nature, 440, 7081, 2006 - onde se concluía, preto no branco, que as espécies de plantas existem mesmo! Surpreendido? Não pense que se trata de uma questão científica menor e ultrapassada, ou então de um capricho de teórico. Embora antiga e discutida até à exaustão, a realidade da espécie nas plantas, e, implicitamente, a aplicação do conceito biológico de espécie e a similaridade (ou a dissimilaridade) dos processos de especiação nos animais e nas plantas, são temas em aberto, e de ponta.
A partir de dados recolhidos em mais de 200 géneros de plantas, os suprareferidos autores, resumidamente, defendiam que:
1) nas plantas com reprodução sexual a existência de grupos discretos indivíduos de morfologia similar é a regra, e não a excepção;
2) estes grupos de indivíduos estão, geralmente, reprodutivamente isolados. Os eventuais híbridos têm uma elevada probabilidade de serem estéreis, aliás, os híbridos férteis são mais prováveis entre os animais, do que entre as plantas;
3) a formação de híbridos não é a principal causa de, ainda assim, algumas espécies apresentarem fronteiras (morfológicas) mal definidas.
Em suma, a espécie não é um artefacto da razão. Muitos botânicos sobrevalorizaram, abusivamente, as dificuldades taxonómicas, e os testemunhos de hibridação, em Quercus (Fagaceae), Cistus (Cistaceae), Rubus (Rosaceae), Taraxacum (Asteraceae) ou Hieracium (Asteraceae), por exemplo, concluindo que as plantas são mais promíscuas do que os animais. Este enviesamento é antigo, e contaminou muitos teóricos da especiação (e.g. Darwin, por influência do seu amigo, e enorme botânico, Joseph Hooker).
Óptimo.
Para comemorar a descoberta, e a partilha de propriedades evolutivas entre plantas e animais, publico as fotos de dois híbridos (e respectivas espécies parentais), frequentes em Trás-os-Montes ;-)

Quercus pyrenaica (Fagaceae) «carvalho-negral» [Bragança]

Quercus faginea subsp. faginea (Fagaceae) «carvalho-cerquinho» [Bragança]

Quercus x neomarei (= Q. faginea subsp. faginea x Q. pyrenaica) (Fagaceae). N.b. folhas brilhantes, de recorte intermédio

À esquerda Q. pyrenaica; à direita Quercus x neomarei. N.b. diferenças na cor da folhagem


Cistus laurifolius (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus ladanifer (Cistaceae) «esteva, xara, ládano» [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

Cistus x cyprius (= C. ladanifer x C. laurifolius) (Cistaceae) [Bragança, Monte de S. Bartolomeu]

[fotos C. Aguiar]